terça-feira, 30 de setembro de 2014

Consumismo infantil

                 No ano passado fizeram um trabalho na escola do meu filho que me chamou a atenção para algo que eu nunca tinha observado: a propaganda voltada para o público infantil. Foi nesse momento que conheci o Instituto Alana e assisti a um vídeo que eles fizeram sobre esse tema.

                A partir desse momento comecei a prestar atenção em fatos que pareciam corriqueiros e percebi quanto meu filho, de cinco anos, recebe essa influência da publicidade. Comecei então a tentar separar o joio do trigo e a usar a favor da educação dele o que vinha de bom e a filtrar as influências negativas.

                Vou dar um exemplo: Um dia estava fazendo janta na cozinha e meu filho veio na minha direção e disse que queria jantar fora, num restaurante japonês. Achei estranho, pois apesar de gostar dessa culinária, consumimos pouco e nunca tinha ido com ele em um restaurante. Por outro lado adorei o fato de ele querer experimentar a culinária japonesa. Disse a ele que assim que desse iríamos almoçar num restaurante japonês e, para minha surpresa ele respondeu: mas tem que ser no Gendai, porque comida japonesa de verdade é no Gendai. Nem preciso dizer que ele viu a propaganda no intervalo do desenho que estava assistindo e saiu repetindo.

                Na semana seguinte o levamos a um restaurante japonês, o que ele havia escolhido. Mostramos os pratos, o deixamos ele escolher. Meu marido o ensinou a usar o hashi, ele adorou tudo, depois explicamos para ele que aquele era apenas um restaurante que vendia comida japonesa, que existiam diversas opções, tão boas quanto ou até melhores que ele.

                Numa outra oportunidade o levei para almoçar comigo num outro restaurante japonês, que ele adorou. Experimentou outros pratos e se divertiu muito, compreendeu o que eu havia explicado.

                Essa foi apenas uma experiência que tivemos com relação a publicidade voltada para ele. Diversas vezes marcas, lugares ou situações fora do seu cotidiano foram citados como referência as propagandas assistidas.

               Há atualmente um consumismo muito grande por parte das pessoas de modo geral. Algumas pessoas consomem por puro prazer, outras para serem aceitas por um grupo, outras ainda para mostrarem que tem condições. Muitas vezes ao comprar algo o que menos importa é se estamos precisando. Essa atitude vivenciada por parte das crianças acaba sendo incorporada por elas, mudando muitas vezes o rumo da infância.

                Outro dia eu estava numa loja escolhendo um presente para um aniversário e me deparei com uma situação que me chamou a atenção: Um pai estava com dois filhos, um menino de uns dois anos e uma menina que deveria ter uns seis anos. Ele queria que ela escolhesse um presente que ele ia dar para ela. Ela escolheu uma boneca, ele falava calmamente para ela: “Filha, você já tem várias bonecas iguais a essa e não brinca com nenhuma delas, ela vai para o baú junto com as outras. Eu quero te dar um presente que você goste e fique feliz de receber”. Ela insistia que ela queria a boneca, porque uma amiga dela tinha aquela boneca e ela tinha muitas, mas não tinha aquela que a amiga tinha e ela ia ficar feliz com a boneca.

                Senti naquele diálogo um pai querendo deixar a filha feliz com um presente, mas para ela o gesto do pai não tinha importância, ela queria a boneca porque a amiga tinha e ela não. A importância para ela era ter o mesmo que a amiga. Confesso que senti um vazio.

                Aquele pai provavelmente teria ficado muito feliz com um brinquedo na infância dele, onde se ganhava brinquedos uma vez no ano e se sonhava muito com eles. Mas sua filha não entendia o seu sentimento, para ela era apenas mais uma posse, mostrar que também podia ter ser igual à amiga, disputar com ela... Os conceitos mudaram.

                Isso chamou novamente minha atenção, que exemplo estamos dando para nossos filhos? Que valores estamos passando para eles? Onde mora o limite? É um caso para se pensar.

                A infância está sendo invadida, estamos perdendo conceitos importantes, mudando o rumo das vidas das nossas crianças. Não deve ser preocupação de uma criança o nome da loja onde os pais vão comprar o brinquedo, assim como o shopping não pode ser melhor para ela do que o parque. Uma menina não pode achar um sapato mais importante que uma boneca e nem fazer a unha mais importante que brincar na areia.

                Acredito que o comportamento dos pais, aliado com as propagandas desenfreadas vem contribuindo muito para que a infância perca o que tem melhor: a inocência.

                Ser inteligente é não permitir que a publicidade invada nossos lares e comprometa a infância dos nossos filhos, fazendo nossa parte, esclarecendo as dúvidas, mostrando outras opções e dando o exemplo com nossas atitudes.

                Para quem quiser conhecer mais segue o link: http://criancaeconsumo.org.br/. Assistam ao vídeo “Criança a alma do negócio”.

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